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Durante muitos anos em minha vida tenho atuado no campo teológico. Ensinei teologia bíblica, sistemática, exegese, línguas originais, teologia prática por mais de 30 anos. Dei aulas em quase todos os continentes do mundo, fui diretor de seminário e escrevi artigos e livros. Algumas dessas reflexões foram inclusive traduzidas para outras línguas para ambientes distantes e remotos.

De fato, a caminhada da igreja é lenta. Vê-se uma fragilidade quando se confirmam “enfermidades teológicas” no contexto eclesiástico. Temos de tudo: tradicionalismo irrefletido, sectarismo, misticismo desenfreado, obscurantismo acadêmico, apego a modismos intelectualistas, atitude serviçal a ideologias, aprisionamento a posturas sistemáticas limitadas e até fanatismo perigoso.

Para a minha surpresa, comecei a ver um impressionante progresso teológico nas últimas semanas. Parece que a teologia vai decolar. A razão da minha esperança: senhoras e senhores, quero apresentar a todos: a Teologia da Epidemia. E, agora, com vocês, o Dr. Coronavírus. Passo a palavra ao nosso incomparável professor. O grande mestre da teologia tem larga experiência internacional, numa jornada transcultural invejável, conhecendo quase todas as culturas do mundo, possui perfil flexível, adaptando-se a qualquer contexto, possui enfoque democrático, estando presente em toda e qualquer comunidade, sem fazer distinção entre as pessoas. Onde passa, o celebrado doutor deixa sua marca de transformação e traz profunda reflexão dos ambientes em todos os aspectos. Os desdobramentos na área de espiritualidade foram os maiores dos tempos recentes. Incrível! Deixando o currículo e a trajetória do ilustre mestre já apresentado, vamos ao conteúdo que se tornou o seu legado para esta geração. O que é que temos aprendido nessa Teologia da Epidemia?

Como muitas vezes se reconhece, para tanta gente, o silêncio inspira espiritualidade. Nos últimos dias, o barulho do planeta diminuiu. Está mais fácil meditar e orar. Até a poluição do planeta cansado encontrou pausa. O tom da arrogância de muita gente se foi. Há uma consciência de finitude única em nossos dias. Isso não é novidade, mas a verdade é que caiu no esquecimento. Mas, as últimas aulas do Dr. Corona nos fizeram recordar textos como:

Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes? (Sl 8.3,4)

Ultimamente, vejo gente mais reflexiva, pensativa, mais “centrada”! O desprezo dos outros diminuiu. O dinheiro, a fama, a formação, a capacidade e a posição foram todos relativizados pela nova realidade. A didática do novo mestre é eficiente. Parece que todo mundo descobriu que não somos nada! Somos frágeis, simples “pó”, que não tem razão para vanglória. E a obsessão e ansiedade pelo controle de tudo que faz de cada um o seu próprio deus, levou xeque-mate. Não há o que fazer. Podem liberar a agenda, esqueçam planilhas, realinhem expectativas financeiras. Agora está mais fácil escutar Jesus:

"Por que vocês se preocupam com roupas? Vejam como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem tecem. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal". (Mt 6.28,34).

Quanto aprendizado!

Sinceramente, os ensinos do desconhecido mestre se provaram incríveis. O poder soberano do Senhor se tornou mais palatável. Os limites impostos pelo Criador às ações humanas deixaram inerte muita crueldade. Guerras foram interrompidas! O terrorismo cedeu. O tráfico de drogas e de armas perdeu força. Prostituição infantil, escravidão humana e tráfico de órgãos foram retidos pelas últimas ações de teologia prática do Dr. Corona. Quanto alívio para milhares de pessoas! Para completar, veja mais um toque exegético do inusitado professor:

Venham! Vejam as obras do SENHOR, seus feitos estarrecedores na terra. Ele dá fim às guerras até os confins da terra; quebra o arco e despedaça a lança, destrói os escudos com fogo. "Parem de lutar! Saibam que eu sou Deus! Serei exaltado entre as nações, serei exaltado na terra. " (Sl 46.8-10)

E as lições não param! É muito conteúdo. É teologia completa, detalhada e abrangente. Assim como a igreja primitiva foi despertada de sua letargia pela perseguição (At 6-7), parece que estamos sob a mesma pedagogia. Como é difícil mudar um paradigma! Somos arraigados a padrões, fórmulas, práticas, e assim muda-se a diretriz divina em posturas mortas, petrificadas e perversas. Foi esse o conflito de Jesus com muitos religiosos. Queremos ter o domínio e o controle. Passamos a dominar e deixamos de aprender, de rir e de chorar. É a morte! Uma epidemia terrível. Como Deus trata dessa petrificação letárgica? Perguntemos ao professor. Ele nos mostrou em sua última palestra que o Deus que se revela é um Deus misterioso, que também se esconde: Verdadeiramente tu és um Deus que se esconde, ó Deus e Salvador de Israel. (Is 45.15). Esse Deus é aquele que fez aliança com Abraão em meio a “densas trevas e apavorantes” (Gn 15.12), que entregou Jó à dor, sem que o pobre Jó tenha tido conhecimento do que aconteceu de fato, e que entregou seu filho Jesus à morte de cruz em nosso favor (Fp 2.8). Como entender? Os caminhos inescrutáveis de Deus (Rm 11.33) nos calam em nossas opiniões fúteis e certezas apressadas, humilham nossa sabedoria e nos ajudam a depender de Deus em humildade.

E se somos libertados pelo Deus misterioso, que às vezes se oculta, em sua pedagogia peculiar, fica bem mais fácil quebrar as amarras dos ensinos falsos que acumulamos. Que coisa bonita! Que libertação! O abraço sombrio e doloroso do Deus amoroso e misterioso que nos machuca é o que nos liberta e nos traz a cura!

Agora, vamos aprender. O Dr. Corona é muito capaz. Eficiência única! Ele resolveu nos dar um curso intensivo de Eclesiologia. O primeiro impacto foi atingir o envolvimento de muita gente com a necessidade de reunir-se como igreja (Hb 10.25). Tantos que antes desprezavam cultos e facilmente os trocavam pela fórmula 1, pelo futebol ou por um churrasco, agora “sentem muita falta” das reuniões da igreja. Prioridades redescobertas! Que impressionante.

Em termos da compreensão do que é igreja, com o tempo, parece que nós nos esquecemos de tudo. Começamos a achar que a essência da igreja se define pela instituição, sacramentos, denominação, prédio, templo sagrado, espaço físico, clube de amigos, entre outros elementos secundários. De repente, tudo isso se mostrou fragilizado. Que aula de contextualização e flexibilidade nos deu o Dr. Corona. Assim como Paulo teve que deixar a sinagoga em Éfeso e partir para o ensino da Palavra de Deus na escola de Tirano (At 19.8-10), fomos obrigados a realinhar nossa eclesiologia.

Paulo entrou na sinagoga e ali falou com liberdade durante três meses, argumentando convincentemente acerca do Reino de Deus. Mas alguns deles se endureceram e se recusaram a crer, e começaram a falar mal do Caminho diante da multidão. Paulo, então, afastou-se deles. Tomando consigo os discípulos, passou a ensinar diariamente na escola de Tirano. Isso continuou por dois anos, de forma que todos os judeus e os gregos que viviam na província da Ásia ouviram a palavra do Senhor.

            Criado numa tradição cultural e religiosa muito estrita, Paulo aprendeu muito com o Senhor e nos deixou um legado de entendimento a respeito da Igreja. Vale observar que o trabalho teológico do apóstolo, seu discipulado, sua expressão de comunhão, tudo se fez principalmente à distância no início da expansão da fé cristã. Incrível! Sempre dedicado a suas viagens missionárias, às vezes preso, passando por perseguição, Paulo foi o principal “eclesiólogo” da igreja primitiva e fez o que fez sem seminários, juntas missionárias, templos e instituições denominacionais. De longe ele mandava os “arquivos” de ensino: filipenses.doc, romanos.txt, efésios.docx, e até hoje “estão funcionando”. A “rede de transmissão” era fraca, e os pergaminhos demoravam para “serem baixados”. Até chegarem as cartas e se disseminarem seus ensinamentos demorava bem mais do que hoje! Seus discípulos se reuniam em pequenos grupos, em casas, mas tinham o Reino na vida e no coração, e mudaram o mundo com o Evangelho. Muitas vezes a igreja deixa de lado a essência da fé em Cristo e diaboliza o que não deveria: rádio, televisão, celular, tecnologia, internete, mídias digitais, sem usar esses recursos para o bem do Reino. Que coisa! Se a igreja que criamos está fundamentada em elementos que não subsistem, ela não permanecerá, mas, se tem fundamento no Evangelho, e na flexibilidade de formas realinháveis, tranquilamente poderemos migrar para o contexto digital sem perder a essência da fé. Fascinante! Extraordinário”

            Mas, devo dizer que o mestre teólogo tem sido indelicado em algumas ocasiões. Talvez precise de um curso de boas maneiras. Suas lições recentes foram um “balde de água fria” no triunfalismo religioso de nossos dias. Gente que prometia “cura e prosperidade absoluta” para todos está em dificuldade. Não se ouve mais muita coisa desse perfil triunfalista. A proposta mostrou-se frágil. A compreensão equivocada do “posso tudo naquele que me fortalece” (Fp 4.13) será realinhada pelo estudo do texto, com a ajuda do Dr. Corona.

            Já não há muito a dizer no desfecho desta reflexão. Mas, preciso dizer que guardo comigo uma certa decepção. Parece que o Dr. Corona não teve tão bom desempenho nos seus ensinos. Nem tudo foi eficiência. Depois de tantas lições aprendidas, até mesmo no contexto evangélico, ainda percebo gente se ofendendo, pessoas tentando tirar “vantagem” do próximo em meio à epidemia; vejo enfrentamentos políticos desnecessários, muita coisa triste. Eu já estava tão aborrecido, quase desistindo de tudo, até que encontrei este texto bíblico:

No dia seguinte (Moisés) saiu e viu dois hebreus brigando. Então perguntou ao agressor: "Por que você está espancando o seu companheiro? " O homem respondeu: "Quem o nomeou líder e juiz sobre nós? Quer matar-me como matou o egípcio? " Moisés teve medo e pensou: "Com certeza tudo já foi descoberto! " Quando o faraó soube disso, procurou matar Moisés, mas este fugiu e foi morar na terra de Midiã. Ali assentou-se à beira de um poço. (Ex 2.13-15)

            Em meio à escravidão, o povo de Deus não parava de se ferir e conseguia ampliar problemas e sofrimento! Parece que a coisa não mudou muito. Entendi então que o mal do vírus é mais grave do que eu pensava. Agora descobri por que Moisés largou tudo e abandonou seu chamado. Sem saber o que fazer, eu me sentei e comecei a chorar. Ainda mais agora que o Dr. Corona também falhou. Então, li um pouco mais adiante o texto até que eu pudesse me acalmar. Entre as lágrimas que prejudicavam a minha leitura, de repente descobri que Deus as estava recebendo, e não só as minhas:

Pois agora o clamor dos israelitas chegou a mim, e tenho visto como os egípcios os oprimem. Vá, pois, agora; eu o envio ao faraó para tirar do Egito o meu povo, os israelitas". (Ex 3.9-10)

            Se Deus ouviu a dor do povo que tinha falhado completamente e os libertou por meio do fracassado Moisés, que tinha fugido, e assim o Senhor construiu sua linda história de redenção depois da peste, da mortandade, da quarentena da Páscoa, da escravidão, de tanto horror no antigo Egito, ainda há esperança. É possível ir muito além da teologia do Dr. Corona. Então, respirei fundo, enxuguei as lágrimas, me levantei e saí do meu deserto, pedindo ao Deus misterioso, soberano e amoroso: Eis-me aqui, envia a mim.

Luiz Sayão

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A Graça enquanto tema recorrente na Teologia

A graça divina é um conceito fundamental para o cristianismo, tanto no Ocidente como no Oriente. Dado o seu aspecto na economia da salvação, “bem podia ser dito que as boas-novas do evangelho não são outras que a mensagem da graça de Deus” (GONZÁLES, 2005:145).

Apontamentos a respeito da graça encontram-se presentes nos escritos de teólogos de todas as épocas. Já entre os pais apostólicos, Clemente de Roma afirmou que a aproximação do homem a Deus se concretiza por meio da Sua graça; anota ainda que muitas mulheres, na história, fizeram grandes feitos em decorrência da graça divina, conforme Primeira Epístola aos Coríntios, capítulos 23 e 55, respectivamente (CLEMENTE, 2021).

Ainda nos primeiros séculos do cristianismo, na Epístola de Inácio aos Efésios, observa-se a papel da graça reunindo os fiéis na mesma fé em Jesus (INÁCIO, 2021). Na Epístola de Inácio a Policarpo, logo no preâmbulo, registrou-se a compreensão de que a graça possibilita a propagação do Evangelho.   

Apesar de, por vezes, o leigo contentar-se com a afirmação de que a graça é o favor imerecido de Deus, não raro, teólogos se envolvem em severas discussões a respeito de sua natureza, conceito, papel, alcance etc. Na famosa controvérsia entre Pelágio e Agostinho de Hipona, abriu-se espaço para intensa discussão a respeito da graça. Na Carta 195, encaminhada ao abade e aos monges de Hadrumeto, Agostinho se refere ao pensamento de Pelágio a respeito da graça, como o “veneno da herança pelagiana” (AGOSTINHO, 1999:17).

Tomás de Aquino, em sua monumental Suma Teológica, afirmou que a graça aperfeiçoa a natureza humana. Para ele, a graça é a manifestação do amor divino em direção da humanidade. O Aquinate chega a sustentar que quando o ser humano age em direção ao bem, diz-se que ele é auxiliado pela graça divina, de modo que há na “...pessoa algo sobrenatural que vem de Deus” (AQUINO, I-II, 110, 1, C.).

No cenário da Reforma Protestante, e entre os seus herdeiros, muitos conflitos surgiram a respeito da graça, notadamente diante de qualificativos a ela atribuídos. Nessa quadra histórica, há de se destacar o advento das seguintes expressões: graça irresistível (HORTON, 2017), graça resistível (PICIRILLI, 2002:154), graça preveniente (POPE, 1877:350 e ss), graça comum (KUYPER, 2002:127) etc. Estes conceitos ainda hoje são utilizados e, em certa medida, estão presentes em discussões recorrentes entre calvinistas e arminianos, para citar os dois grupos que mais ocupam espaço na cena protestante.  

Para Calvino, a graça permite ao ser humano cumprir os mandamentos divinos (CALVIN, 1982:248), sendo que o referido pensador não nega que o “coração do homem pode tornar-se flexível à obediência do que é reto, desde que o que é nele imperfeito seja suprido pela graça de Deus” (Idem, 2006:64). Ao seu turno, Jacó Armínio destaca que a “graça inicia a salvação, promovendo-a, aperfeiçoando-a e consumando-a” (ARMÍNIO, 2015: 406). Na mesma senda, o mesmo teólogo atribui à “graça o início, a continuidade e a consumação de todo o bem...” (Idem: 231).  

A Teologia contemporânea, com pequenas variações, segue os parâmetros das discussões acima citadas.

A graça horizontal no Carta de Paulo a Timóteo: a reconfiguração da condição de Onésimo

Conhecida é a passagem bíblica onde o Apóstolo Paulo afirma que a salvação se dá pela graça, por meio da fé, independentemente das obras humanas (Ef. 2:8). A este tipo de graça, que se revela salvadora e permite a aproximação do sujeito caído a Deus, não discorreremos nesta oportunidade. Porém, adiantamos que esta manifestação da graça, costumamos classificar como graça vertical, pois diz respeito a relação do Altíssimo com os seres humanos.

Nosso intento, nestes parágrafos é apresentarmos os efeitos da graça divina na relação entre as pessoas, influenciadas pelo que, de nossa parte, denominamos graça horizontal. Mas, o que podemos entender por este conceito teológico?

De nossa parte, conceituamos graça horizontal como toda a ação humana, de auxílio aos vulneráveis de modo desprovido de interesse e possibilidade de retribuição, centrada essencialmente no amor fraternal. O instrumento que viabiliza esses atos de bondade é a graça divina que, a despeito dos efeitos da queda, permite a exteriorização de práticas benevolentes entre os seres humanos.

Para a exposição do conceito acima expresso, escolhemos a pequena Carta de Paulo a Filemon, dado o registro da intensa defesa do Apóstolo em proveito de Onésimo. Salvo melhor juízo, a atuação paulina é representativa do que classificamos como manifestação da graça horizontal em socorro ao vulnerável.  

Vamos aos detalhes da manifestação da graça horizontal na defesa de Paulo em proveito de Onésimo.

A Carta de Paulo a Filemon foi escrita no contexto em que os escravizados eram considerados coisas. Assim, um cativo não gozava do status de pessoa, sendo destituída de dignidade. Esta é a grave condição dos seres humanos sujeitos ao cativeiro no antigo Direito Romano.

Por outro lado, a condição do escravo fugitivo era mais degradante, pois o sistema legislativo da Antiga Roma, incentivava o dono do escravo a matá-lo em praça pública. O escravizado poderia ser submetido à pena de morte, acompanhada de requintes de perversidade. Excepcionalmente, caso o senhor de escravos entendesse que seria mais lucrativa a manutenção da vida do cativo recapturado, as leis romanas permitam horrendas torturas ou amputação de membros do escravo.

Quando Paulo sai na defesa de Onésimo ele se coloca em auxílio de alguém que, como escravo fugitivo, não poderia retribuir o socorro do Apóstolo. Assim, estamos diante de um auxílio desinteressado, em atenção à pessoa de agravada vulnerabilidade no contexto da estrutura social e jurídica de Roma. 

Paulo, em gracioso apoio a Onésimo, escreve para Filemon rogando que este, na condição de senhor de escravo, não matasse aquele que foi acolhido pelo socorro amoroso do Apóstolo. O apelo feito à escravaria filemoniana foi mais além do que poupar a vida do escravizado recapturado, o que já seria muito para a realidade legislativa do Império Romano. Paulo vai mais além: solicita a Filemon a reconfiguração do status jurídico de Onésimo, conforme se constata abaixo.  

O Apóstolo Paulo pede para que Filemon receba Onésimo “não mais como escravo, mas muito além de escravo, como irmão amado” (Fm. 16). Neste sentido, em sentido inverso à legislação romana, constata-se no pedido paulino a alteração na relação entre o senhor (Filemon) e o escravo (Onésimo). A graça horizontal impõe agora relacionamento fraterno.

Não há mais espaço para que Filemon sacrifique a vida de Onésimo, pois agora ele deveria ser inserido em sua família. Não somente como um irmão, mas doravante na condição de “irmão amado”. Na mesma passagem, Paulo determina que Filemon receba Onésimo como pessoa e como cristão. Ora, esta interseção não é de somenos importância, haja vista que o sistema jurídico romano não atribuía à condição de pessoa aos escravizados. O fato de Onésimo tornar-se cristão, enquanto filho espiritual de Paulo, permitia a ampliação de sua família, não somente estabelecida por vínculos sanguíneos, mas agora por laços de fé.

Mais a frente, não bastasse a inserção de Onésimo na família de Filemon, Paulo ainda faz outro pedido, qual seja: “assim, se você me considera companheiro na fé, receba-o, como se estivesse recebendo a mim” (Fm 17). Com efeito, este requerimento é marcante, pois Paulo, enquanto cidadão romano, usufrui de privilégios impensáveis para os escravizados. Com isso, mais uma vez, a atuação graciosa do Apóstolo procura colocar Onésimo em status jurídico diverso daquele que, como cativo, lhe era conferido pela legislação e os costumes da época lhe impunham.

A história de Onésimo, por si só, é comovente. No entanto, eleva-se em importância quando nela se observa o Apóstolo Paulo, movido pela graça, sair em defesa da vida e dignidade de Onésimo, para comover Filemon a recebê-lo a partir dos parâmetros da graça horizontal. Ao invés de ser recepcionado sob o rigor da pena capital e/ou de toda a espécie de torturas, em suavização às relações humanas, a graça horizontal permitiria o acolhimento amoroso do novo membro da família da fé: Onésimo.

Creatore, ipsi gloria in saecula 

Ivan Durães[1]

 

[1] Diretor de Regulação e Pesquisa da Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Pós-doutor em Ciências da Religião. Pós-doutor em Direito. Pós-Doutor em Antropologia. Pós-doutorando em Educação. Doutor e mestre em Direito. Mestre em Ciências da Religião. Bacharel em Teologia, Filosofia e Direito. Atuação como professor universitário na graduação, especialização, mestrado e doutorado. Autor de mais de 40 livros. 

REFERÊNCIAS

AGOSTINHO. A Graça e a Liberdade. In: A Graça II. Trad. Agustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 1999 (Coleção Patrística).

AQUINO, Tomás. Suma Teológica. Trad. Aimom-Marie Roguet et al. São Paulo: Loyola, 2001.

ARMÍNIO, Jacó. Carta Endereçada a Hipólito A. Collibus. In: Armínio. Obras de Armínio. Trad. Degmar Ribas. São Paulo: CPAD, 2015. Vol. II.

________. Declaração de Sentimentos. In: Armínio. Obras de Armínio. Trad. Degmar Ribas. São Paulo: CPAD, 2015. Vol. I.

CALVIN, John. Treatises Against the Anabaptists and Against the Libertines. Michigan: Baker Academic, 1982.

________. As Institutas. Trad. Waldir Carvalho Luz. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. Vol. 2.

CLEMENTE. Primeira Epístola aos Coríntios. In: Pais Apostólicos. Trad. Brian G. L. Kibuuka; Cláudio J. Rodrigues. São Paulo: Fonte Editorial, 2021 (Coleção Patrística).

GONZÁLES, Justo. Breve Dicionário de Teologia. São Paulo; Hagnos, 2009.

HORTON, Michael. Calvino e a Vida Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2017

INÁCIO. Epístola de Inácio a Policarpo. In: Pais Apostólicos. Trad. Brian G. L. Kibuuka; Cláudio J. Rodrigues. São Paulo: Fonte Editorial, 2021 (Coleção Patrística).

________. Epístola de Inácio aos Efésios. In: Pais Apostólicos. Trad. Brian G. L. Kibuuka; Cláudio J. Rodrigues. São Paulo: Fonte Editorial, 2021 (Coleção Patrística).

KUYPER, Abraham. Calvinismo. Trad. Ricardo Gouvêa. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

PICIRILLI, Robert. Grace, Faith, Free Will: constrating views of salvation – calvinismo and arminianism. Nashville: Randall Horse Publications, 2002.

POPE, William B. A Compendium of Christian Theology. London: Wesleyan Conference Office, 1877.

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AS DIVERSAS VERSÕES

No conhecido versículo do Salmo 116.15 as mais diversas versões em português trazem textos bastante diferentes. As versões variam. Por isso, muitos leitores acabam ficando cheios de dúvidas sobre qual tradução é a correta. Se abrirmos as versões bíblicas mais conhecidas, evangélicas e católicas, encontraremos o seguinte:

Preciosa é à vista do SENHOR a morte de seus santos. (Almeida Corrigida)
Preciosa é aos olhos do SENHOR a morte de seus santos. (Almeida Atualizada)
É custosa aos olhos de Iahweh a morte dos seus fiéis. (Bíblia Jerusalém)
É preciosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis. (CNBB)
O Senhor Deus sente pesar quando vê morrerem os que são fiéis a ele. (NTLH)
O Deus Eterno fica muito triste quando morre alguém do seu povo. (BLH)
O SENHOR vê com pesar a morte de seus fiéis (Nova Versão Internacional)

A dificuldade prática para muitos cristãos é que esse versículo tem sido tradicionalmente utilizado em contextos fúnebres para consolar pessoas enlutadas. O fato é que, muitas vezes, o texto é interpretado como se estivesse falando de uma espécie de “recepção divina ao salvo que passa para a vida eterna”. Será que isso está correto?

O CONTEXTO DO SALMO 116

O contexto do salmo é facilmente identificável. O texto fala de um homem a quem Deus livrou da morte. Agradecido, ele vai ao templo e cumpre a promessa feita ao SENHOR. Esse salmo de gratidão relata a luta do salmista com a morte (1-4), declara a bondade e a misericórdia do SENHOR (5-7), comprovada pela forma como ele escapou da morte (8-11). Muito feliz, o salmista oferece o sacrifício prometido (12-14) e expressa sua dedicação a Deus, convocando o povo ao louvor do SENHOR (15-19). Para entender o versículo 15 precisamos entender que seu texto deve ser interpretado à luz desse contexto, especialmente do que vemos nos versículos 2-3 e 8-9, isto é, o livramento da morte.

A RAZÃO DAS DIFERENTES TRADUÇÕES

Uma rápida observação nas diferentes versões revelará que elas estão divididas em dois grupos. As versões tradicionais de Almeida e as principais versões católicas são muito semelhantes. A diferença é que nas versões católicas o termo hebraico qadôsh foi traduzido por “fiel” e não por “santo”, para evitar a possível confusão do leitor. Não há dúvida de que a palavra se refere ao indivíduo do povo de Deus que está em aliança com ele. Já as versões evangélicas contemporâneas, como a Nova Versão Internacional, a Bíblia na Linguagem de Hoje e sua versão revisada, a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, trazem outra tradução.

O foco do problema de tradução está na palavra hebraica yaqar, cujo significado literal é “ser pesado”, tendo adquirido o sentido de “precioso, caro”. A palavra é usada para se referir a pedras preciosas (Sl 36.7). A pergunta que precisa ser feita é qual é o significado do termo no Salmo 116.15. A morte dos santos, ou fiéis, é preciosa para Deus? Em que sentido? O que o texto de fato está ensinando?

Quem lê o texto conforme as versões mais antigas, pode chegar a duas possibilidades:

  1. Que o SENHOR gosta da morte dos seus santos. A morte é algo precioso, caro, desejável. Seria esse o sentido do texto? É claro que não, pois isso não faz sentido, e dá ideia de um Deus que parece ter prazer no sofrimento humano.
  2. Que o SENHOR está presente e cuida do seu fiel, na hora da morte. Essa é a interpretação mais comum. No entanto, essa maneira de entender não tem muita relação com a palavra “preciosa”. A versão popular é mais intuitiva do que exegética.

Devemos concluir que apesar de muito comuns essas abordagens não refletem o significado do versículo no seu contexto original.

A outra alternativa, das versões contemporâneas, principalmente da NVI e da NTLH, é o “SENHOR vê com pesar a morte de seus fiéis”. Como se chega a tal tradução? Por que um texto tão diferente? Aqui a palavra yaqar é vista no seu sentido de “algo de alto custo”, isto é, “precioso”. Isso significa que para Deus a morte de um fiel é algo que custa muito. A tradução de Toombs, por exemplo, capta bem a ideia: “O SENHOR não é indiferente ao fato de seus fiéis serem ou não mortos”. Numa tradução bem contemporânea, poderíamos dizer que para o SENHOR a morte de seus fiéis “não passa em branco”. A morte de alguém que é fiel ao SENHOR recebe a atenção de Deus, assim como uma pedra preciosa atrai o olhar de alguém. Portanto, apesar da opção estilística “vê com pesar” não ser perfeita, a ideia fundamental corresponde ao sentido do original. Na verdade, essa opção de tradução está correta, e há duas razões para isso:

  1. Contextual. O contexto do salmo revela a gratidão de um adorador que foi salvo da morte, e não de alguém que passou para a eternidade. O autor fala da morte com enfoque negativo. Não é uma experiência desejável nem pelo autor nem por Deus.
  1. Teológica.Muitas pessoas entendem o texto bíblico de maneira incorreta, lendo o Antigo Testamento como se fosse o Novo Testamento. A verdade é que o Antigo Testamento discute muito pouco a vida depois da morte. Aquilo que conhecemos como escatologia individual só é plenamente desenvolvida no Novo Testamento. Portanto, é muito improvável que um salmo esteja falando do pós-morte, pois o enfoque dos salmos e do Antigo Testamento em geral é a vida na terra.

Apesar de muito conhecida, a versão tradicional do Salmo 116.15 não reflete o sentido do texto original. As versões contemporâneas estão corretas.

Luiz Sayão

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Muitos cristãos imaginam que traduzir a Bíblia é um empreendimento da igreja moderna. Na maioria dos casos, crê-se que somente a partir da Reforma Protestante é que surgiram as primeiras versões bíblicas. A verdade é que desde que a igreja primitiva começou a pregar o evangelho surgiu a necessidade de colocar a Palavra de Deus na linguagem do povo que se convertia ao evangelho. Portanto, a história da tradução da Bíblia é paralela da história de Missões. Ainda hoje, a tradução da Bíblia é o primeiro ministério da igreja cristã. Sem isso, não é possível pregar, ensinar e fazer missões. No entanto, a tarefa é árdua e exige muito. Depois de trabalhar por cerca de dez anos com a Nova Versão Internacional, podemos resumir os desafios da tradução bíblica nas seguintes palavras:

1. A Questão do Texto Original

            Quase todos estão cientes de que não temos conosco os manuscritos originais da Bíblia. Há milhares de cópias guardadas em bibliotecas, museus e instituições religiosas em todo o mundo. É a partir dessas cópias é que é feita a tradução das Escrituras. Na verdade, há um trabalho de crítica textual muito bem feito sobre esses manuscritos antigos disponível na Biblia Hebraica Stuttgartensia, Antigo Testamento baseado no Texto Massorético, publicada pela Deutsche Bibelgesellschaft, e The Greek New Testament, editado por Eberhard Nestle e Kurt Aland (28a edição), publicado pela Deutsche Bibelgesellschaft e pela United Bible Societies. Quase todas as traduções baseiam-se principalmente nesses textos, muitos respeitados pela vasta maioria dos estudiosos de todo o mundo. Algumas variações entre manuscritos são sinalizadas nas traduções mais críticas e contemporânea através de notas de rodapé.

2. A Questão da Linha Teológica

            Ainda que toda tradução tenha os seus méritos, é impossível uma “neutralidade absoluta” de linha teológica. Assim, temos traduções católicas e traduções protestantes. Além da existência de livros apócrifos, vamos encontrar terminologia específica nessas traduções. Enquanto as traduções protestantes usam “arrependei-vos”, algumas traduções católicas dizem “fazei penitência”. A Bíblia de Jerusalém chega a usar a palavra “óstia” em Romanos 12.1-2. A versão Pastoral é claramente alicerçada na Teologia da Libertação. Uma simples lida nos títulos do texto de Êxodo 4-10 não deixará nenhuma dúvida. A versão Almeida Corrigida costuma ser preferida por igrejas mais conservadoras, como a Congregação Cristã do Brasil e Igreja Deus é Amor, enquanto que a Bíblia na Linguagem de Hoje é mais usada por aqueles que possuem uma linha teológica mais aberta. A NVI representa uma visão evangélica geral.

3. A Questão Semântica

            Pode parecer estranho para muita gente, mas é fato que muitas palavras do texto hebraico, aramaico e grego ainda estão sendo estudadas e definidas com precisão. Isso é especialmente verificável no caso do hebraico. Todavia, sabemos que são poucos os termos difíceis de tradução e, além disso, eles ocorrem menos freqüentemente na Bíblia. As descobertas da arqueologia (como os manuscritos do mar Morto), os estudos de línguas antigas como o acadiano e o ugarítico, e o desenvolvimento da ciência lingüística muito contribuíram para um conhecimento mais amplo e profundo dos vocábulos bíblicos. Por isso, traduções mais recentes, que têm acesso ao resultado dessas pesquisas levam grande vantagem na transmissão correta da Palavra de Deus.

4. A Questão da Sintaxe e da Interpretação do Texto

            Há muita gente que acredita que uma boa tradução da Bíblia é uma tradução bem literal. Não há dúvida de que muitos textos ficam bem traduzidos quando acompanham de perto a forma do original. No entanto, nem sempre isso acontece. Por isso, todas as traduções usam de maior ou menor liberdade para poderem comunicar o sentido do texto original. Para entender bem essa dificuldade bastar observar o texto de 1Reis 14.10, onde o hebraico diz “o que urina na parede”, normalmente traduzido por “homem” ou “do sexo masculino”. Nenhuma versão em português seguiu o hebraico literalmente. Isso significa que por amor à clareza e à língua receptora, muitas traduções reestruturam a frase em português, incluem verbos e palavras para a que a frase faça sentido, interpretam a sintaxe de acordo com as melhores gramáticas (às vezes o texto literal pode deixar uma ambigüidade inadequada). No entanto, deve ficar claro que as diferentes versões optam por um grau maior ou menor de literalidade de acordo com a proposta de tradução que possuem.

5. A Questão da Atualização Linguística

            Uma pergunta importante que deve ser feita por quem traduz a Bíblia é: Para quem ela se destina. Por isso, é muito importante reconhecer que a dinâmica da língua exige revisões nas mais diversas versões. Ninguém usa a versão de Almeida de 1681. A linguagem ali usada é incompreensível para o leitor de hoje. Algumas versões antigas ainda usam termos praticamente desconhecidos nos dias de hoje como vilipêndio, impudicícia, enxúndia, etc. Isso significa que toda boa versão bíblica precisa passar por revisões de tempo em tempo para evitar anacronismos, termos que tenham mudado de sentido, palavras que possam ter adquirido conotações chulas ou pejorativas, etc. Graças a Deus por aqueles que se esforçam para tornar a Palavra de Deus compreendida pelo povo. Ninguém mais entende termos como “chocarrice, impudicícia, enxúndia, propinquo, etc.”

6. A Questão do Leitor-alvo

            Muitas vezes ouvimos a pergunta simplista: qual é a melhor tradução da Bíblia? Antes de responder à tal pergunta é importante definirmos a quem se dirige essa versão. Há traduções cujo mérito está no seu aspecto literário. Outras representam um marco histórico. E há aquelas que procuram comunicam para um grupo específico de pessoas. A Bíblia na Linguagem de Hoje, por exemplo, preferiu comunicar o sentido do texto para todos, inclusive pessoas de pouca cultura. Ao fazer isso, aspectos literários, paralelismos e figuras do original perdem sua força na tradução. A NVI, por exemplo, é um meio termo entre as versões mais tradicionais que primam pela forma e as mais livres que optam por traduzir o texto com ênfase no leitor moderno e menos culto. O fato é que ninguém pode fazer uma boa tradução da Bíblia sem considerar essa importante questão.

Luiz Sayão

A Reforma Protestante, que mudou a história da Europa do século 16, foi um retorno à Bíblia. Sola Scriptura foi o grito de Lutero, acompanhado por Calvino, Zuínglio e outros da grande reforma religiosa. Essa herança construiu história, na Europa Central e Setentrional, na América do Norte, e mais recentemente no Brasil e na América Hispânica.


Na história da Reforma, porém, pouco se conhece de como os reformadores puderam ter acesso outra vez ao texto bíblico a partir das línguas originais. Rompendo com a tradição medieval e o domínio do latim, os reformadores tiveram que pesquisar as Escrituras além da Vulgata Latina, buscando o texto mais próximo do original possível. O estudo do Novo Testamento Grego e da Bíblia Hebraica teve prioridade na tradição protestante desde o início. Como foi possível estudar e entender o hebraico antigo? Era necessário aproximar-se dos judeus e do judaísmo.


Essa proximidade pouco comentada, que contrasta com a caminho antissemita da Cristandade, marcou história e há muito produziu saudável proximidade entre cristãos e judeus. O movimento é conhecido como filossemitismo. A busca do texto hebraico do AT fez de eruditos judeus mestres de reformados. Estudiosos da época como Johannes Reuchlin confirmam como as obras e o conhecimento de hebraístas como David Kimhi e Elias Levita foram fundamentais para o aprofundamento nas Escrituras Hebraicas. Isso foi reconhecido até mesmo pelo próprio Martim Lutero. Essa proximidade e terreno comum criaram uma certa simpatia entre as comunidades judaicas e protestantes, o que se verá no continente americano posteriormente. Os Estados Unidos tornam-se um exemplo dessa boa convivência.

Os reformadores entenderam que o edifício teológico, eclesiástico e religioso construído no contexto da época tinha se afastado muito da proposta original do cristianismo. O movimento, portanto, era de um retorno às raízes, da primazia da Palavra, da valorização do cristianismo primeiro. E não há como fazer isso sem redescobrir o hebraico, a língua, a cultura e a cosmovisão presentes no texto sagrado. Mas, a pergunta deve ser feita: O retorno da Reforma foi suficiente? O mundo greco-romano erigido sobre a tradição primeira foi suficientemente afastado para que se pudesse encontrar as raízes dos primeiros discípulos de Jesus? Cinco séculos depois a pergunta ainda é válida, principalmente em nossa realidade brasileira, quando a confusão reina nos ambientes evangélicos ligados Antigo Testamento e a elementos judaicos. A igreja está confusa: vai do antissemitismo explícito ao movimento judaizante irrefletido e místico. Como lidar com a questão? Que caminho devemos tomar? Enquanto muitos na igreja brasileira reproduzem um universo mágico, comum em nossa cultura, apropriando-se de símbolos judaicos, ao mesmo tempo, a distância da cosmovisão hebraica e bíblica prevalece no contexto evangélico. Já que a maioria dos evangélicos brasileiros não encontra plena identidade nas tradições protestantes europeias e norte-americanas, a busca da identidade evangélica nacional revestiu elementos de nossa cultura brasileira de símbolos judaicos. Infelizmente, o caminho tem se mostrado pouco promissor. Diante desse quadro, vemos que é tarefa necessária do protestantismo brasileiro (e mundial) redescobrir o mundo hebraico que fundamenta a Escritura, nossa Regra de Fé. A Reforma não foi completa. Muito do mundo grego e do império romano obscureceram aquilo que definia e delineava o cristianismo primitivo, a comunidade dos discípulos de Jesus (Yeshua).


A elaboração mais recente da teologia bíblica e os estudos comparativos entre a cosmovisão hebraica e a visão de mundo grega, tem sido útil para entender a questão. De fato, a maneira grega de ser e pensar moldou muito da alma ocidental, e também nossa teologia e cristandade. Parece que ainda hoje nossa teologia cristã do ocidente tem mais sintonia com Platão e Aristóteles do que com Moisés, Amós e João. Nossa referência, muitas vezes, parece ser Roma e Atenas, e não Jerusalém. Chegou a hora de caminhar novamente na direção de um filossemitismo e um filo-hebraísmo. Há muito a ser aprendido, e esse entendimento é especialmente valioso. Alguns estudiosos desenvolveram considerações muito úteis para o entendimento da questão. Destaque para o norueguês Thorleif Boman, autor de Hebrew Thought Compared with Greek (W.W. Norton & Company, New York, 1960), o estudioso francês Claude Tresmontant, autor de Essai sur la pensée hébraïque (ÉditionsduCerf, Paris, 1953), e o norte-americano Max Kadushin, com as obras Organic Thinking (Jewish Theological Seminary, New York, 1938) e The Rabbinic Mind (Jewish Theological Seminary, New York, 1952). O trabalho mais recente é o do israelense Yoram Hazony, The Philosophy of Hebrew Scripture (Cambridge: Cambridge University Press, 2012).


O fato é que o mundo grego e o hebraico são distintos e, às vezes, bem opostos. Talvez, a primeira distinção importante seja a priorização judaica do tempo. Os hebreus construíram uma visão de mundo na qual o tempo é a dimensão fundamental, já a perspectiva helênica valorizava o espaço. Há muitos vocábulos na Bíblia Hebraica para referir-se ao tempo. O foco é o agir de Deus na história humana, categoria predominante do pensamento bíblico. Essa preponderância do tempo desdobrou-se no valor da Palavra. Por isso, para o judeu era importante ouvir (Dt 6.4), enquanto que, em geral, para o grego, ver sempre foi essencial. Esse era o mundo das esculturas e da arte visual. Ideia e teoria, por exemplo, são palavras nossas que vêm do grego e significam ver. Na visão grega de mundo há um certo desprezo da linguagem, vista como referência inferior. Platão, por exemplo, buscava a ideia pura, pois só através dela seria possível alcançar a verdade. A abstração aristotélica também não se distancia disso. Na Grécia antiga dedicar-se à contemplação e ao mundo das ideias era considerada a mais nobre atividade. No mundo hebraico, a Palavra é tudo. Davar (palavra) também significa coisa e fato. A Palavra une e faz referência tangível à realidade. Deus cria o mundo falando. Sua revelação é o seu NOME. Sua verdade é mediada por sua Palavra. O próprio Jesus é o VERBO de DEUS (Jo 1.1).


Os gregos são os pais da filosofia. A busca pela “essência” das coisas por meio da razão marcou o gênio helênico. O mundo hebraico é diferente. A realidade é complexa e é criação de Deus. O homem deve reverenciar o Criador e viver em santidade. A criação é bela e não é inferior por ser material. A realidade integrada e complexa deve ser celebrada à luz da revelação do Criador. Por isso, a abstração marca o mundo grego, mas, a Bíblia Hebraica não é sistemática, filosófica ou teológica. São textos vivos e dinâmicos que delineiam a relação do Criador com o homem. ThorleifBoman, com razão, afirma: A mente hebraica é “dinâmica, vigorosa e apaixonada, e de vez em quando até explosiva; enquanto a mentalidade grega é estática [harmônica], serena, moderada”. Por isso, o hebraico fala concreto enquanto o grego pensa abstrato. A ideia pura para o grego é o caminho para alcançar a verdade, por isso, lidar com a vida é usar abstrações, modelos que supostamente organizam a realidade. Essa abstração pressupõe um movimento de distanciamento da realidade, de construção de um mundo que não toca o cotidiano. Já a linguagem bíblica é concreta e sensorial; em vez de abstrações, descreve a experiência vivencial do homem em sua relação com Deus. Lutero chamou isso de “energia especial” no vocabulário bíblico. Essa linguagem sensorial dá vida, movimento e um colorido especial ao texto bíblico e à literatura hebraica antiga. Por exemplo: irar-se é “arder as narinas”, ver é “levantar os olhos”, o orgulhoso é aquele que tem “dura cerviz”, revelar ou apresentar algo é “falar aos ouvidos”, preparar-se é “vestir os lombos”.


Com esse enfoque, a realidade bíblica é dialética, em oposição ao reducionismo lógico aristotélico, que tanto tem dominado a teologia. O texto sagrado não se incomoda em afirmar realidades aparentemente opostas (complementares). Deus é um ser infinito, mas pode encarnar num bebê em Belém da Judeia. Deus pode ser um e três ao mesmo tempo. A Bíblia é Palavra de Deus e foi escrita por homens. Somos salvos pela fé e ao mesmo tempo por obra exclusiva do Espírito Santo. Deus é totalmente soberano e nós somos livres e responsáveis por nossos atos. Enquanto o racionalismo limitado conduz à fragmentação e à polarização do texto bíblico, o enfoque dialético hebraico permite a convivência tranquila e complementar de vários temas importantes das Escrituras. Um realinhamento “hebraico” nos daria mais humildade, menos desejo de “dominar o texto” e mais tolerância e fraternidade. Precisamos enxergar e viver a vida, sob a perspectiva hebraica, numa atitude de encantamento diante do sagrado e do divino, e aceitar que Deus é simplesmente inefável, constatando que a realidade é entrelaçada e complexa. A Bíblia hebraica mantém muitas tensões, sem que isso traga nenhum prejuízo a Deus ou ao mundo criado. Na história do Êxodo, quando Moisés diz ao faraó que deixe o povo ir adorar a Deus, o faraó endurece o coração, mas também diz que Deus endurece o coração do faraó. Nenhuma crise para o pensamento hebraico. Grande complicação para o mundo grego.
É útil observar alguns contrastes fundamentais entre as duas perspectivas aqui:

Se quisermos construir uma Reforma plena, um retorno completo às Escrituras, por meio de uma teologia e de uma igreja mais viva e apaixonada por Deus e sua graça, e se desejarmos experimentar uma intensa sintonia entre reflexão e espiritualidade e com humildade crescer em tolerância e união em Cristo, é preciso revisitar o mundo hebraico, a matriz fundamental que estrutura e fundamenta o pensamento bíblico. Caso estejamos prontos, quem sabe tenhamos uma nova Reforma” Quem sabe venhamos a redescobrir o lado hebraico da Reforma! Que o Eterno nos abençoe.

Luiz Sayão

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